Amedeo Modigliani (1884-1920) e o templo da beleza: uma utopia figurativa na arte moderna, sécs. XIX-XX

Susana Restier Poças

O artista italiano Amedeo Modigliani (1884-1920), cuja grande aspiração vivencial foi a de ser escultor, idealizou um templo da beleza, inspirado na herança clássica, composto por inúmeras cabeças e cariátides, às quais chamou “colunas de ternura”. Deste ambicioso sonho, que durou até 1914, chegaram até nós desenhos e algumas esculturas, nas quais podemos vislumbrar uma parte do que seria esse monumento que, devido à precária saúde do artista, bem como à dimensão utópica do mesmo, não chegou a materializar-se na totalidade.

Contudo, a originalidade do projecto, assim como o prodigioso esforço que este conteve, pois as esculturas foram realizadas em talha directa, merecem uma reflexão sobre a conjugação entre a tradição e a inovação.

Modigliani aliou a metáfora da linguagem plástica à transfiguração de uma imagem ancestral que sagazmente adaptou a um ideal moderno, criando um projecto que, integrado na sua obra de homenagem à humanidade, ainda hoje apresenta-se detentor de uma singularidade extraordinária.